Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009
Depois das apostas

Cena final de Slumdog Millionaire. Talvez seja eliminada do Youtube nas próximas horas por violação de direitos de autor, mas enquanto isso não acontece...

 

Primeiro: gosto dos óscares. São uma autêntica feira de futilidades, mas gosto. Gosto de apostar, gosto de os discutir. Não gostei muito do aspecto caseiro do espectáculo deste ano. Mas gostei de não exisitirem tempos mortos.

 

Melhor filme
"Slumdog Millionaire" - acertei. Gostei de ver nas notícias a gente dos bairros de lixo batido a ver a cerimónia numa televisão no meio da rua. Gostei menos das esperanças que aquela gente tem de ver os óscares a chegarem nas mãos das crianças. O óscar vai para o produtor. O momento de glória daquelas crianças atingiu o pico quando subiram ao palco. A partir de agora, duvido de qualquer futuro dourado. Quanto ao Benjamin Button, baseado num belo (e divertido) conto de Scott Fitzgerald, foi para mim uma desilusão. O filme não é particularmente divertido e é, na minha opinião, sobrevalorizado (apesar de gostar da ideia da aproximação do furacão sobre Nova Orleães e do consequente final - coisas que, obviamente, não existem no conto original).

 

Melhor reaizador
Danny Boyle - ‘Slumdog Millionaire’. Acertei. Já gostava do realizador de Trainspotting. Já gostava da forma como a sua sensibilidade de video clip conseguia manter um filme sempre acima da cultura MTV. Não há realizador que melhor consiga filmar, literalmente, a merda e gente a mergulhar nela e, ainda assim, manter um sorriso nos lábios de quem vê a porcaria.

 

Melhor actor
Sean Penn - ‘Milk’. Errei. Pensei que o Mickey Rourke, com the ‘The Wrestler’, já tinha o óscar no papo. Não teve. Sean Penn mereceu o prémio e o tempo de antena. E Rourke saiu, ainda assim, como vencedor moral. E foi o único homem de quem se falou a respeito da indumentária. Já é muito.

 

Melhor actriz
Kate Winslet - ‘The Reader’. Acertei.  Anne Hathaway, em ‘Rachel Getting Married’ faz bem o seu papel, mas o filme é um beco sem saída. Angelina Jolie está bem em ‘Changeling’, mas falta-lhe um pouco de pimenta malagueta. Melissa Leo, em ‘Frozen River’, revelou ao mundo que não deve ser ignorada, e a Academia já fez muito em estender-lhe o tapete vermelho. Gostaria de a ver noutros papéis. Meryl Streep, em ‘Doubt’, está magnífica, mas já se pode contentar com mais uma nomeação. Não precisa de mais momentos de glória, até porque vai tê-los enquanto se mantiver de pé. Kate Winslet está magnífica em "O Leitor". Ponto. Ainda não vi o Revolutionary Road, mas duvido que esteja melhor aí, ao contrário do que ouvi a outros dizer.

 

Mehor actor secundário
Heath Ledger - ‘The Dark Knight’. Errei. Philip Seymour Hoffman, em ‘Doubt’, para mim, devia ser o vencedor. A atribuição póstuma de um óscar é um disparate. Façam as homenagens que quiserem, mas por que raio é que se há de dar um mimo a quem já não pode usufruir dele? Outras formas de homenagem seriam mais adequadas. O momento da treta da noite, quanto a mim.


Melhor actriz secundária
Penélope Cruz – ‘Vicky Cristina Barcelona’. Errei. Sabia que era ela que ganhava, mas creio que o papel de histérica não é assim tão difícil de fazer. Ainda mais para uma espanhola. Amy Adams, em ‘Doubt’, era comedida. Gostei da personagem. Tenho para mim que os prémios para os actores premeiam mais o argumentista como criador de personagens que os actores que neles pegam. Claro que se não tiverem unhas... E, pronto, Penélope Cruz tem unhas.


Melhor filme de animação
Wall-E. Sem surpresas. Um filme lindo onde a forma humana de amar se reflecte em personagens que supostamente não poderão amar. Gosto muito, muito, muito, muito deste filme. E o beijo eléctrico do final é um dos maiores momentos amorosos da história do cinema.

 

Mehor filme estrangeiro
‘Departures’ (Japão). Errei. Não vi. ‘Entre les murs’ (França) foi a minha aposta. Também não vi ainda, apesar de ser professor. Para mais tarde comentar.

 

Melhor argumento original

Dustin Lance Black, em ‘Milk’. Errei. Mas sem grande surpresa. O filme é bom, o tema é adequado aos tempos que passam... mas, para mim, o low profile de Courtney Hunt, em ‘Frozen River’ é algo que merecia ser valorizado.

Melhor argumento adaptado
Simon Beaufoy - ‘Slumdog Millionaire’. Acertei. Sem dúvida nenhuma, um belíssimo argumento, com um sentido de timing perfeito.

 

Melhor Banda Sonora
Slumdog Millionaire, de A R Rahman. Acertei. Mas há coisa mais divertida que esta banda sonora? Deixa cá pôr a tocar mais uma vez... Os outros são mais do mesmo, ainda que gosto de todos...


Melhor canção
‘Jai Ho’ - ‘Slumdog Millionaire’... Acertei. Ora deixa cá ver se é desta que aprendo, finalmente os passos de uma dança que seja...

 

Melhor montagem
Chris Dickens em ‘Slumdog Millionaire’. Errei. Mas sem surpresas e sem desgosto. Mike Hill e Dan Hanley, em ‘Frost/Nixon’ conseguem o perfeito balançar entre as duas partes em jogo. Novamente, o low profile não sobe ao pódio.


Melhor fotografia
Anthony Dod Mantle – ‘Slumdog Millionaire’. Errei. Tom Stern, em ‘Changeling’ é mais criativo. Mais colorido. Mais escuro. Pronto... E esta é uma das categorias em que não costumo errar...


Melhor Guarda-Roupa
Michael O’Connor, em ‘The Duchess’. Errei. Jacqueline West,  em ‘The Curious Case of Benjamin Button’ estava bem. Mas nada bate as rendinhas de época da BBC.

 

Melhores efeitos sonoros
Lora Hirschberg, Gary Rizzo, Ed Novick - ‘The Dark Knight’. Errei. Não ouvi porque não vi. Tom Myers, Michael Semanick e Ben Burtt , em ‘WALL-E’ eram, talvez, demasiado sintéticos, mas podiam ser outra coisa?

 

Melhor montagem sonora
Tom Sayers - ‘Slumdog Millionaire’. Errei. Ben Burtt, Matthew Wood, em ‘WALL-E’, novamente, prejudicados por trabalharem com material sintético. Mas foi bem atribuído, a um filme que molda os sons da realidade com invulgar e feérica mestria.

 

Melhor caracterização
Greg Cannom - ‘The Curious Case of Benjamin Button’. Errei. E discordo do vencedor. As carantonhas plásticas da velhice são exageradas e absolutamente pavorosas. Acho que o pessoal votou mais a pensar naquilo que pensou ver do que naquilo que, de facto, é dado a ver.

 

Melhor direcção artística
Donald Graham Burt, Victor J. Zolfo - ‘The Curious Case of Benjamin Button’. Errei. Kristi Zea, Debra Schutt , em ‘Revolutionary Road’ deviam ganhar. O low profile, e a década de 50, não dão óscares.

 

Melhores efeitos especiais
Eric Barba, Steve Preeg, Burt Dalton, Craig Barron - ‘The Curious Case of Benjamin Button’. Errei. Mas foi bem atribuído. Nick Davis, Chris Corbould, Tim Webber, Paul Franklin, em ‘The Dark Knight’ foi apenas um tiro ao calhas. A ver se dava.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 22:29
link do post | Dizer de sua justiça | Adicionar aos favoritos
4 comentários:
De Luís Bonifácio a 24 de Fevereiro de 2009 às 00:35
Não me importava nada de ter as unhas de Penelope cravadas nas minhas costas. Acho que é o que ela sabe fazer melhor.

Agora a boca foleira:
Aliás penso que foi nessa posição que ela ganhou o Óscar.
De Manuel Anastácio a 24 de Fevereiro de 2009 às 01:18
LOL
De Gerana a 24 de Fevereiro de 2009 às 00:52
Às vezes penso que a literatura, sendo, como é, a minha grande paixão, acaba mexendo comigo de uma forma intensa demais. Ou, então, eu não tenho senso de humor. Digo isto porque o conto O curioso caso de Benjamin Button, de Fitzgerald, não me parece divertido; chego a chorar literalmente com aquele final: a vida às avessas, a alegoria em uma história absurda para trazer a inexorável condição humana de uma maneira insólita e, ainda assim, fantasticamente trágica porque mais triste do que é naturalmente. Mais triste do que envelhecer é rejuvenescer: eu acho a ideia genial, o conto genial, o choque genial.
De Manuel Anastácio a 24 de Fevereiro de 2009 às 01:20
Sim, tens razão. O conto é trágico. O humor de Fitzgerald é negro. Mas não deixa de ser sentido de humor.

Dizer de sua justiça

.pesquisar