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Sábado, 21 de Fevereiro de 2009
Enciclopédia Íntima: Chorar

Excerto de "Sonata de Outono", de Ingmar Bergman.

 

Quando era pequeno (e ainda sou pequeno) desenvolvi a teoria de que as pessoas choravam para que o mundo aparecesse desfocado. Enquanto chorava, as lágrimas transformavam a realidade cúbica do mundo numa confusão de círculos de luz. E isso era belo. Era o mundo desfigurado onde preferia viver. As linhas rectas pertenciam à estrutura de toscos do edifício onde tinha nascido. Um mundo de sarrafos sujos e onde tudo tinha a utilidade sórdida da economia que não me permitia simplesmente ficar a ler à sombra dos pinheiros que agora já não existem, substituídos que foram pelos eucaliptos que tomaram conta da paisagem da minha infância. No saco onde levava a bucha para os dias de trabalho, levava sempre um livro. Sujo de cimento, li Saramago e Homero. Sujo de cimento, não podia ver os filmes da época áurea do cinema que passavam à tarde na televisão pública e que, ainda assim, e afortunadamente, conseguia gravar num VHS (que ainda funciona), usando o temporizador. Por vezes, os filmes ficavam incompletos. E, por um minuto que faltasse, não os via. Tinha de os ver desde o primeiro ao último fotograma. Quando chorava, o mundo era belo. Os meus olhos tornavam-se câmaras que distorciam a dor de viver e a transformavam na suportável experiência de assistir à dor. O cinema era uma forma de chorar através dos olhos dos outros. De manhã, entre as escoras das cofragens que me cabia a mim desmontar e transformar em pilhas de madeira ordenada e limpa de pregos, imaginava planos que captassem a beleza dos pingentes de argamassa que se formavam entre as juntas das tábuas e a beleza das escoras, primeiro de troncos de eucalipto jovem, mais tarde de extensores de metal, que se iam sobrepondo, tapando e revelando como colunas de uma fria arquitectura imitando grades, em profundidade, frente ao céu rosa das manhãs que se estendiam sobre os baldios à espera de mais construções à moda ortogonal da Maison-Domino de um Le Corbusier que eu desconhecia, quando já discorria, no silêncio do meu cérebro rejeitado, sobre Aristófanes e John Ford. Nessa altura, não gostava de arquitectura. Era a arte perversa de me roubar a infância.

 

Quando era pequeno (e ainda sou pequeno) chorava todos os dias. Era a minha forma de escrever o mundo.

publicado por Manuel Anastácio às 00:18
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4 comentários:
De Gerana a 21 de Fevereiro de 2009 às 19:44
MUito bacana, Manuel. Um texto e tanto, emocionante sem ser piegas. Trecho a ser destacado: "Quando chorava, o mundo era belo. Os meus olhos tornavam-se câmaras que distorciam a dor de viver e a transformavam na suportável experiência de assistir à dor. O cinema era uma forma de chorar através dos olhos dos outros. " Excelente.
De Maria Helena a 21 de Fevereiro de 2009 às 22:28
"Pelas minhas lágrimas conto uma história" escreve Roland Barthes. Temos muitas maneiras de chorar e, o modo como o fazemos, revela não só a temperatura dos sentimentos, mas a natureza da própria sensibilidade.
As lágrimas emprestam um realismo único, irressistível à dramática expressão de nós próprios.
«Junto dos canais de Babilónia/ nos sentamos a chorar/ com saudades de Sião»
Cioran disse, um dia, que as lágrimas são aquilo que permite a alguém ser santo, depois de ter sido homem.
De Silvério Salgueiro a 22 de Fevereiro de 2009 às 07:43
“planos que captassem a beleza dos pingentes de argamassa que se formavam entre as juntas das tábuas e a beleza das escoras, primeiro de troncos de eucalipto jovem, mais tarde de extensores de metal, que se iam sobrepondo, tapando e revelando como colunas de uma fria arquitectura imitando grades, em profundidade, frente ao céu rosa das manhãs”,
Estes planos, que não foram gravados em VHS e que quando fizeste rec ” na tua memória ficaram pelas circunstâncias enevoados de choros e pó de cimento, aparecem aqui no Play ” deste post ”, reproduzidos com uma clara nitidez. Os choros enevoam mas também limpam. Gostei.
De ana ramon a 27 de Fevereiro de 2009 às 15:09
Há já algum tempo que não passo por este teu cantinho e, como sempre acontece, tenho aqui uma série de textos para ler e pensar.
Com o tempo muito limitado fui lendo um bocadinho na diagonal prometendo a mim mesma tornar a vir muito em breve para reler um ou outro post que me tocou um pouco mais. Nessa leitura corrida acabei por parar aqui. Este filme que ainda tenho em Vhs quase que se gastou de tanto ser visto. Fartava-me de chorar sempre que o via. Essas lágrimas tentavam apenas derreter as enormes arestas da memória onde sempre me feria ao mergulhar nela.
A minha voz era a voz de Eva quando finalmente consegue acusar a mãe, libertando-se. E na minha impossibilidade de o fazer -apenas por falta de coragem - libertava-me também ao acompanhar a coragem da personagem.
Não faço ideia das vezes que vi esse filme... acabei por crescer na vida, criar os meus filhos, perder a mãe, até que finalmente compreendi que pode haver compreensão e perdão sem confronto.
Ora esta.. e já estou para aqui outra vez a choramingar :(
Um belíssimo filme, sem duvida. Representações inesquecíveis de Ingrid Bergman e Liv Ulmann .
Ah... e obrigada pela correcção. Já está feita... e embora não tenha aparecido ultimamente, continuo a gostar muito de ti.
Um beijinho

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