Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009
Buscas pedidas: O Bem e o Mal nos Contos de Fadas

"Fairytale" ("Shrek"), música de Harry Gregson-Williams, interpretada por Joseph M. Rozell.

 

A escrita para crianças deve focar, a nível da sua construção narrativa, as questões mais difíceis de entender ou de explicar por parte dos adultos. E deve fazer isso usando imagens que, por vezes, são particularmente cruéis, outras vezes oniricamente falsas e, muitas vezes assentes nos mais básicos estereótipos que, aqui, servem de símbolos a que não se deve retirar a sua força, a pretexto de não querer traumatizar os meninos. De nada nos serve querermos inculcar nas crianças mais jovens valores de tolerância relativista. O quadro mental inicial de uma criança é puramente maniqueísta e resume-se ao que é bom e ao que é mau. A pedagogia que subjaz, contudo, à maioria dos textos recentes para crianças aponta exactamente para o arredondar das arestas cortantes dos contos de antigamente. Para a proteção de um suposto mundo imaculado onde vive a criança. Isso é mau. Nascemos geneticamente preparados para enfentarmos a violência da nossa condição animal e humana, até porque nascemos já capazes das maiores violências sobre os outros, e é a educação que, gradualmente nos vai inserindo num pacto social de concórdia e tolerância. Não defendo, é certo, a violência como meio educativo (reguadas, vergastadas e bater com o cinto) - mas é um facto que a criança exige resoluções violentas para as suas angústias. A madrasta má deve sofrer de um fim mais sádico que aquele que a justiça deveria reclamar. Eram assim as histórias originais dos Irmãos Grimm. Hoje, a Gata Borralheira, mui cristãmente, perdoa à madrasta. Isso estará correto, com certeza, do ponto de vista de um adulto ou de uma criança já a caminho da pré-adolescência, mas é um erro que, por extensão, se julgue que também deve ser assim para quem o mundo é apenas uma sucessão de situações fantasmagóricas. É nesta fase que se deve apelar aos conceitos de bem e mal. É aqui que radicam todos os valores que a criança mais tarde desenvolverá. Usando a nomenclatura de Kieran Egan, ao modo somático de entender as coisas (dá prazer / dá dor) segue-se esta fase, o modo mítico de compreensão do Universo. Só depois se entra progressivamente na compreensão da realidade como coisa complexa, com os estádios romântico (em que se apreende a diversidade), filosófico e, finalmente, irónico (estádio a que já chegou a Manuela Ferreira Leite, mas não o comum dos portugueses). Como na velhinha teoria da recapitulação, que postulava que o embrião passava por todas as formas biológicas da sua árvore filogenética, e que sendo uma teoria refutada não deixa de ser útil para o nosso entendimento, também Egan postula que as nossas necessidades educativas passam por estádios que correspondem à evolução histórica da humanidade ou, pelo menos, da história das suas ideias (sempre no sentido da compreensão da complexidade dos fenómenos humanos). Ora, isso coloca alguns problemas interessantes: é lícito continuar a dizer que o mau era o lobo? Ou que o mau era muito feio, e que a bruxa tinha uma verruga no nariz? Ou que as personagens boazinhas são sempre bonitas? A minha opinião é: não, não é necessário, no caso das características dos seres humanos que não se prendem diretamente à sua bondade ou à sua maldade. Nestes casos é conveniente escreverem-se histórias em que os bons sejam feios (o caso do Shrek, no cinema, é um exemplo muito louvável, nesse sentido) ou em que as madrastas sejam boas ou, mesmo, que as madrinhas sejam más. O que importa, no que ao ser humano diz respeito, sempre, é a dicotomia bem / mal. Mas será sempre necessário apelar ao simbolismo dos elementos narrativos que devem ser facilmente reconhecidos como bons ou maus. É aqui que a fábula aparece como excelente meio de compromisso entre as necessidades de compreensão da criança e os pruridos do politicamente correto. O lobo pode perfeitamente ser exemplo de crueldade. Os valores ecológicos de preservação da biodiversidade não serão postos em causa pelo seu papel simbólico. Basta que as crianças não terminem a sua evolução no estádio mítico. Infelizmente, muitas terminam. E algumas até chegam a lugares cimeiros da administração pública.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:00
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