Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009
Provavelmente

Gilbert Bécaud - L'important c'est la rose

 

Não sei se é numas das premiadas traduções de Jorge Luís Borges pelo João Barrento que aparece, a dado momento, a respeito da teologia trinitária, que o Espírito Santo está em eterna procissão em relação ao Pai. Das duas, uma, e ninguém me esclarece: ou o erro saiu do lápis do João Barrento e foi mantido, tendo em conta a sua autoridade intelectual, prescindindo-se de qualquer revisão do texto, ou o revisor não conhecia a palavra processão e decidiu mudar o e para um i. Afinal, estava-se a falar de coisas de padres, é bem provável, que o Espírito Santo ande por aí, em eterna procissão, talvez de autocarro, os cegos dos ateus é que não veem. Ainda assim, faz-me impressão a ligeireza com que os livros são dados à estampa em Portugal, mesmo quando os autores são gente consagrada, ou especialmente nesses casos. Somos um país de Doutores. Toda a gente sabe isso. Até me envergonho de estar a escrever tamanha banalidade. Mas é verdade. Portugal é um país de Doutores. Muitos dos quais, no topo das suas cátedras e escorados em antolhos têm uma especial predisposição à Mourinho para estarem constantemente a posar para um retrato de absoluta autoridade. São esses Doutores que dizem que a blogosfera é um antro de escritores falhados. E não falharão muito nisso, mas também não faltam escritores falhados fora da blogosfera - eu tenho para mim que todos os escritores são falhados, caso contrário, não escreveriam. Escrever é um eterno ato de compensação por uma falha qualquer. É o Inferno em eterna processão em relação ao buraco espiritual que, qual buraco negro do CERN, os positivistas ateus e agnósticos experimentam no coração. Se forem ateus ou agnósticos. Há escritores crentes, mas até esses têm de trazer heresia no sangue para que sejam, de fato, escritores. Têm que ter uma falha. Caso contrário, estão no Paraíso. E no Paraíso está tudo escrito. O Corão, linha por linha, e a Bíblia também. Ninguém precisa de escrever nada. As pessoas perfeitas nem sequer precisam de ler. São elas mesmas a literatura. Lerem-se, seria a autoreferência, e a autoreferência é o paradoxo. E o paradoxo levaria ao fim do mundo. Leva ao fim do mundo. O Mundo provavelmente não existe, porque é que eu hei de estar aqui a preocupar-me? São esses Doutores, alguns deles falhados o suficiente (só que não sabem) para escreverem na blogosfera, que dizem que a Wikipédia tem erros porque é anárquica, e não percebem que há erro em todo o lado, até nas suas cabecinhas laureadas. Deus pôs o fruto proibido ali à mão da coisa porque queria erro. Queria tempo. O tempo é erro. É falha. É a heresia escrita por Deus.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:00
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1 comentário:
De Gerana a 20 de Janeiro de 2009 às 02:43
Maravilha de texto, acho que todos que utilizam a blogosfera concordam. Adorei!!!
Outro dia fiz um prefácio para um livro de uma poeta de Alagoas. Uma professora doutora de lá gostou muito, trocou e-mails comigo, mas quando eu disse que tinha um blog, ela respondeu que não tinha tempo para ser blogueira (foi posto de uma forma pior, bem pejorativamente). Sabe o que eu acho? Tudo que afeta, que incomoda, é porque se deseja e não se é capaz de fazer (por mil motivos, aí é outra história).
E, claro, só escreve quem tem uma falha, ou melhor, quem sente esta falha. É uma escapatória para não enlouquecer, talvez pelo excesso de lucidez.

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