Domingo, 18 de Janeiro de 2009
Segunda canção última

Cemitério de São Dinis, Vila Real.

 

Sobre os arbóreos tramos

Que para nossa abóbada escolhemos,

Enquanto apenas em nós vivemos,

Passou a aragem dos teus gestos entre os ramos.

Sacudiste a seiva que escorria de cada galho

E, tremendo, chovi em pétalas sobre o teu rosto.

 

Passa o verão, seca o orvalho,

E logo vem a estação do mosto

Destilar, no cobre fosco do alambique,

Alheios fantasmas de vapor entre o calor que morre.

Lá fora, a água escorre.

O musgo medra.

O vendaval procria.

Chegados aos átomos,

Pragmáticos,

Os sábios matemáticos consagram-se à poesia.

 

A cristal geometria do crisol

Solidifica a demora, e o sol,

Noutra abóbada, noutro lar, noutros tramos,

Sobre outro olhar, onde não estamos,

Apenas orvalhará primaveras noutro, agora, ausente rosto,

Indiferentemente renovado, no seu quase eterno posto.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:00
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5 comentários:
De Gerana a 18 de Janeiro de 2009 às 22:04
A última estrofe atingiu um ápice, assim como o fecho de ouro faz nos sonetos. Acelerou, tomou impulso, foi 10. Levo?
De Manuel Anastácio a 18 de Janeiro de 2009 às 23:45
Ué?! E não levou ainda?... :)
De gláucia lemos a 19 de Janeiro de 2009 às 22:48
Quero falar só de dois aspectos deste poema que me encantou sobremaneira. 1º - As rimas internas que compõem um ritmo admirável pelo qual o poema cresce ganhando dimensão que o valoriza. 2º - Imagens como "chovo em pétalas sobre teu rosto", "a aragem dos teus gestos sobre os ramos" e "Alheios fantasmas de vapor entre o calor que morre." Dizer mais o quê? Fiz um comentário no blog de Gerana, onde o li pela primeira vez. Resta só dizer que eu queria poetar assim. Gláucia.

De Manuel Anastácio a 19 de Janeiro de 2009 às 23:22
Obrigado, Gláucia. Já tinha lido o seu comentário no Leitura Crítica e fiquei inchado que nem um peixe-balão de tanta vaidade.
De amita a 10 de Fevereiro de 2009 às 10:20
Dizer que este poema é belíssimo, poderá ser considerado como uma vulgaridade. Na verdade, todo ele transmite-nos um sentir de belo, de encanto, pela forma como está construído, pela imagética sublime das palavras e seu desfecho.
Parabéns, poeta. A casual descoberta deste espaço enriqueceu-me.
Um abraço

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