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Domingo, 11 de Janeiro de 2009
Eu?

 

O comentário que escrevi neste blogue sobre o livro de Gláucia Lemos, Bichos de Conchas, foi publicado no Jornal "A Tarde", ocupando uma página inteira. É certo que me identificam como professor de Literatura, coisa que não sou, mas fica-me uma sensação de espanto quanto aos recantos onde chegam as minhas palavras e a autoridade que lhes dão.

 

Sou um simples professor de Matemática e Ciências da Natureza do Ensino Básico. Um mero funcionário público sem qualquer autoridade académica (e cada vez com menos). Poderia ser um biólogo, um médico, um historiador, um professor de Literatura. Poderia bem ser qualquer uma dessas coisas, mas não sou. Estudei, por razões económicas e utópicas em Santarém, numa escola que nem Universidade é. Por razões económicas, porque nem a minha família nem o Estado português estavam dispostos a gastar dinheiro comigo numa Universidade de melhores pergaminhos. Por razões utópicas, porque julgava que ser professor poderia ser uma leve aproximação à minha ideia de felicidade, entre livros e pessoas, por amor ao conhecimento. Enganava-me. De amor ao conhecimento, esta profissão, não tem nada. Mas não me queixo. Cada um tem o que merece. E se alguém publica um texto meu, mesmo sem revisão, num jornal com a história deste, é porque não sou merecedor de menos.

 

Sou um mero aldeão a quem puseram um computador com internet à frente. Obrigado, Gláucia, por, por teu intermédio, ser, por um dia, algo de tão charmoso como um "professor de Literatura". Se me dessem um doutoramento honoris causa não me sentiria mais honrado, ainda que soubesse que era um erro de julgamento. Bem terminava eu o artigo dizendo o que dizia:

 

Obrigado, Gláucia, por este presente. Guardá-lo-ei como parte de mim.

Artigos da mesma série: ,
publicado por Manuel Anastácio às 17:02
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8 comentários:
De Gerana a 11 de Janeiro de 2009 às 20:24
Pela postagem imediatamente abaixo vejo que outras pessoas também já perceberam que você sabe fazer uma crítica literária. A crítica vem da sensibilidade apurada, é preciso talento e não formação acadêmica em Letras. Os melhores críticos que já li não são da área. Já os mais chatos, são; eles preenchem uma página com os jargões, eles são peritos em destruir um texto até a pessoa nem mais reconhecer a obra e, geralmente, não possuem sensibilidade, gosto pela leitura, prazer diante da obra. Há, claro, exceções.
Vou mandar o jornal para você (se quiser) porque nada como pegar no papel. E queria mandar um livro de contos para você fazer a resenha (e para sair no jornal).
De Manuel Anastácio a 12 de Janeiro de 2009 às 07:26
Gerana, claro que aceito. Ainda pergunta?
De Anónimo a 11 de Janeiro de 2009 às 22:44
Manuel, ser professor é das profissões cuja escolha revela uma nobreza e generosidade ilimitadas, pelo menos, diria...
Da sua seriedade intelectual e generosidade nunca pressupus ter qualquer espécie de relação directa ou indirecta com a sua formação académica e
ser "um simples professor" é modéstia que não se consegue conjugar com a entrega quotidiana daqueles que semeiam para que a dignidade do ser humano se possa cumprir.
Não me leve a mal, mas, não sendo eu professora já tenho que baste no desmerecimento que a Ministra da Educação faz da sua profissão.
Aceite com a humildade de quem sabe que é dos encontros que nascem Magnificat's e com a alegria que a dádiva da Gláucia é merecedora.
Fico feliz por a ter encontrado e por ser senhora sensível à beleza das pérolas e lhe proporcionar o que merece.
Maria Helena
De Manuel Anastácio a 12 de Janeiro de 2009 às 07:33
Maria Helena, claro que ser professor deveria ser semear para que a dignidade do ser humano se possa cumprir. Mas a cada dia que passa e me forçam a cumprir tarefas de puro pastoreio inconsequente, é a minha própria opinião sobre a profissão que escolhi que se degrada. Vou lutando contra isso, é certo. É melhor ter paciência. A Primavera segue-se sempre depois do Inverno.
De gláucia lemos a 12 de Janeiro de 2009 às 00:31
Ora, meu caro Manuel, não fomos nós quem se enganou ao dizê-lo professor de Literatura, foram as suas palavras de crítico competente que nos levaram a apostar nisso. Ademais, a sensibilidade com seu senso crítico não deve a ninguém um canudo acadêmico para o direito de se manifestar com a agudeza dos que são capazes de penetrar até o âmago de uma criação. Sensibilidade, ou se tem ou não se tem. Não existe universidade que ensine a ser poeta, nem a ser prosador, nem a enxergar o que está por trás de uma criação artística. O mais é conversa fiada, meu caro crítico, mestre no assunto. Recebi vários telefonemas elogiando sua resenha e fiquei feliz, Vai o abraço oceânico que lhe retribuo. Gláucia.
De Manuel Anastácio a 12 de Janeiro de 2009 às 07:35
Palavras para quê, Gláucia? Repetir as minhas palavras de gratidão não a tornarão maior do que já é. Beijo grande.
De Alysson Amorim a 13 de Janeiro de 2009 às 14:13
Sorte nossa que puseram à frente desse aldeão um computador com internet. Sou constantemente atraído até aqui pela sua escrita, embora permaneça silencioso.

Um abraço.

Alysson
De Manuel Anastácio a 14 de Janeiro de 2009 às 01:26
Abraço, Alysson. Obrigado pelas palavras calorosas.

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