Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009
Promessas

 

Casa da Ti Geéda. Carvalhal, Abrantes, Cabeço da Espanha. Foto minha na licença do costume.

 

Os poucos leitores que tenho são de uma fidelidade e de um coração de tal modo oceânico que chego a envergonhar-me das vezes que penso em terminar com o blogue e colocar um vídeo do Youtube com alguns dos finais mais bonitos do cinema como último artigo (a copiar a ideia do Spicka). E não consigo deixar de ser profundamente grato a quem, sem me conhecer de lado algum, e sem ter a natural predisposição que há para ler autores que passaram pelo crivo da publicação, da crítica, do público e da História, lêm e sentem o que escrevo quando tantas outras, que me conhecem de presença física e que, supostamente, são minhas amigas, não me lêm, não me querem ler ou dizem que escrevo muito (demais) e falo caro, ou, ainda, sentem como escarros na face algumas das coisas de que mais me orgulho de ter escrito. Ninguém é profeta na sua terra, dizem. Mas o meu fiel natal-conterrâneo (e, tanto quanto sei, único) leitor, Silvério Salgueiro, que, não fosse o blogue, na melhor das hipóteses, também não me conheceria para além da típica genealogia de aldeia, decidiu-se a contrariar o provérbio. E foi repescar algumas das promessas que tinha deixado em suspenso na bruma dos meus esquecimentos, o que só acontece quando vasculhamos os escritos do baú (coisa a que a escrita bloguística não convida muito). Na verdade, não são esquecimentos nem promessas de político. Em algum dos casos, a ideia que tinha em mente desenvolver simplesmente dissolveu-se em outras ideias ou degenerou irremediavelmente nas ideias que não consigo desenvolver, por bloqueios de ordem vária, mas que não creio, de todo, irremediáveis.

 

Assim, fica em suspenso um artigo sobre o professor Baptista Reis porque, depois do que sobre ele escrevi no Professores V (ponto 7) dificilmente conseguiria dizer mais. Mas não digo nunca.

 

Quanto ao texto que tinha deixado em suspenso, e para o qual o meu caro Silvério pede continuação :

 

" O autocarro parava em frente de uma vidraça de loja, no café da Portela, onde lia, aí reflectido "aramac lapicinum ed laodras". Parecia latim ou élfico superior. Depois, seguia por uma curva, ao lado da loja do pai do Americano, e com um eucalipto esguio - o último de um renque e que foi poupado para servir de ponto de referência a quem chegasse à terra, de modo a poder dizer: aqui, junto a este eucalipto cujos ramos baixos foram podados, para acentuar o perfil fálico, está a casa dos Pichas... "

 

... foi escrito estando eu absorto num sentimento particularmente doloroso e propenso a determinadas evocações. Não o vou poder repegar, também, a não ser que outra incógnita e insuspeita madalena de Proust se venha a insinuar nos meus dias e a obrigar-me a escrever aquilo que o computador não me deixou escrever nessa altura. Penso repegar naquele texto, de facto. Mas não agora. E aviso desde já que a casa dos Pichas merece, de facto, um artigo (não aquele, que apenas referiria a casa de passagem). Mas faltam-me os dados históricos e coscuvilhices e uma fotografia de jeito, ainda que a casa tenha entretanto sofrido uma profunda lavagem de cara, mantendo, ainda assim, muitas das dignas linhas da bela arquitectura vernácula de Carvalhal (que muito devem à família do Silvério Salgueiro, nomeadamente os mestres  Manuel Salgueiro e António Dias Salgueiro, respectivamente pai e avô do meu leitor), que as gerações recentes têm se esforçado por apagar e destruir.

 

Prometo que vou pensar no assunto.

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publicado por Manuel Anastácio às 02:00
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8 comentários:
De Gerana a 8 de Janeiro de 2009 às 02:53
Nem ouse pensar em acabar com o blog. Ocorrendo isto, pego Gláucia ali na Pituba (bairro dela), seguimos para Itapuã rumo ao aeroporto e voaremos naquele já conhecido avião da TAP que decola todos os dias de Salvador para Portugal exatamente às 18:45. Moveremos céus e terra em busca do blogueiro poeta que ousou deixar seus leitores à míngua.
De Manuel Anastácio a 8 de Janeiro de 2009 às 07:23
Hum... até que seria interessante assistir a isso...

... mas pensando bem, é melhor virmos a encontrar-nos por outras razões... ;)
De Silvério Salgueiro a 8 de Janeiro de 2009 às 16:33
É com satisfação que vejo que o meu simples comentário deu origem de forma tão elogioso artigo exclusivo. Muito obrigado.
Pichas ” é apenas a alcunha de criança de um dos membros da família “Salamanca”, nome por que eram conhecidos em quase todas as terras da zona do pinhal e onde animavam os festejos estivais.
Moro na cidade onde já saboreaste pampilhos ” e numa futura subida do rio, poderei também coscuvilhar algo mais. Não só a casa mas também a história daquela família é sugestiva que basta para uma boa prosa que junto a outras, escritas ou em suspenso, pela forma como o fazes e levadas à estampa, dariam com certeza obra muito menos efémera do que a arquitectura dos meus familiares, de quem agradeço a referência. Assim o “Professor” não poderia dizer que naquela terra tudo acontece depressa.
PS: tenho uma foto sem jeito do largo eucalipto, junto com outras, no Google Eart ou em: www.panoramio.com user /793408 tags /Carvalhal
De val92 a 25 de Janeiro de 2009 às 21:38
nao diga que a foto do largo eucalipoto é sem jeito. Adoro a. Você é de Carvalhal nao é ? Meus pais sao nativos de là. Nome : Estriga. Talvez você conhece.
Se nao, o senhor ainda vive por là. E conhece por la gente. filho de emigrantes passei todos os meus meses de Agosto là até aos meus 20 anos e gostava muito de reencontrar gente de là
De Cláudio Rodrigues a 9 de Janeiro de 2009 às 22:45
Não sei se foi coragem o que eu tive (ou não), mas provavelmente acabou para sempre... Espero que tenhas gostados do final (trato por tu, hoje acho mais simpático). Abraço, Spicka.
De Manuel Anastácio a 10 de Janeiro de 2009 às 11:00
Gostei do final. Não gostei de que tenha sido, de facto, um final. Mas como continuas na Avenida Central, está tudo bem. :)
De gláucia lemos a 10 de Janeiro de 2009 às 02:04
Caro Manuel, poeta, amigo:
Estive fora passando o reveillon e de volta encontro um movimento, ou ameaça , de dissolução do blog Da condição humana. Ante o susto e a disposição de nossa amiga comum, Gerana, de voar até Portugal com o intuito de protestar, já me encontro de malas arrumadas para tanto, convidada a participar da comissão protestante com bastante entusiasmo. Mas não faço fé que o blogueiro leve a sério essa inicial disposição de nos privar dos seus poemas. Versos não são dos poetas, sim dos seus leitores., por que negá-los?
De Manuel Anastácio a 10 de Janeiro de 2009 às 11:03
Amiga Gláucia: não faço tenção de terminar o blogue. Apenas me ocorre, por vezes, quando sinto que não tenho pedalada para mantê-lo e, ao mesmo tempo, persistir nas tarefas cada vez mais ingratas da minha prosaica profissão (em que entrei, pensando ser poética).

Abraço grande.

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