Domingo, 4 de Janeiro de 2009
Primeira Canção Última

Cemitério de São Dinis, Vila Real. Foto minha, em Creative Commons.

 

Guardo o desejo

De te guardar,

Como te fazes lembrar no resplendor das cinzas

Sobre o espelho esquecimento do terror das águas,

Na memória dos mortos que nos limitam a respiração

A um frio arrepio de esperança

Disfarçado de canção.

Esquecido será já o teu sorriso sob o escuro musgo do paraíso,

E continuaremos a sonhar com árvores, crepúsculos,

Com o teu cheiro a tangerina,

E com o arco abaunilhado dos teus olhos

No negro inconformado de um reflexo de quitina.

Como um milagre de inverno rescenderás

A rosas e a pão quente

E verás em mim

Aquele que o abraço da terra vence,

Ao, somente, respirar.

Abraçar-me-ás em terno silêncio, sem que mais pense,

E podererei, por fim, em ti ,descansar.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 23:55
link do post | Dizer de sua justiça | Adicionar aos favoritos
3 comentários:
De Gerana a 5 de Janeiro de 2009 às 17:23
Maravilha, versos que se derramam como uma cachoeira (minha impressão visual). No final, a emoção do abraço possível enfim. Levo pro leitora?
De Gerana a 5 de Janeiro de 2009 às 17:28
A morte vence sempre, sei que dizer isso é usar um lugar-comum (ou lugarcomum, já não sei quando usar o hífen, preciso estudar de novo as tantas regras novas). Este novo comentário é para reafirmar que o final do poema, o abraço com a terra-mãe (o hífen outra vez, digo, terramãe) na minha visão está ali posto quase como uma meta, daí a grande emoção do grande final.
De Manuel Anastácio a 6 de Janeiro de 2009 às 00:10
Claro que pode levar para o Leitora, Gerana. E gostei da apreciação que deixou agora. Deu-me ideias. Tantas ideias. E tão pouco tempo para pegar nelas. Beijos.

Dizer de sua justiça

.pesquisar