Sábado, 30 de Setembro de 2017
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Um dia, um escorpião queria atravessar um rio. Porque é que queira atravessar o rio, ninguém sabe. Houve quem inventasse que era por curiosidade. As montanhas do outro lado pareciam-lhe imensamente mais interessantes que as planícies monótonas onde até então tinha arrastado a sua existência. As montanhas seriam um desafio. Um objetivo sem sentido, mas que seria um objetivo. E para quem não tem objetivos ou não reconheça imediatamente os que tem, qualquer objetivo parece bom. Mas há quem discorde. E tal discórdia não é inocente perante os factos que se seguem e que são do conhecimento geral, principalmente desde que a história foi contada num filme onde uma mulher foi nomeada para Óscar de melhor ator secundário. A história não é velha, mas é mais conhecida do que se fosse.

Há quem diga que o escorpião queria fugir de um incêndio. Portanto, e não tendo eu paciência para procurar mais razões que tenham levado a tão desmesurado desejo de ultrapassar um acidente geográfico, posso apenas acrescentar que o escorpião podia, simplesmente, querer fazer o que fez a seguir. Mas não quero com isso chegar a qualquer conclusão sobre a natureza humana.

Querendo o escorpião atravessar o rio, pediu a uma rã que o ajudasse. A rã desconfiou, mas, pouco interessa qual o motivo, lá aceitou carregar com um bicho que, em princípio, jamais deixaria aproximar-se. O escorpião usou os seus dons de retórica ou aproveitou-se da inocência da rã. Na verdade, se tudo aconteceu por uma razão ou por outra é indiferente. Ou ambas as razões são uma só. Não interessa, por agora. As motivações pessoais contam pouco nesta história e, talvez tenha sido mesmo por isso que se tornou numa história que, mal tendo aparecido, logo pareceu que já existia há mais tempo, como aquelas músicas que, sendo ouvidas pela primeira vez, parecem já ter sido ouvidas noutro sítio.

Cada pessoa acredita saber a razão porque é que o escorpião queria atravessar o rio, da mesma maneira que acredita conhecer a razão que terá levado a rã a aceitar dar boleia, não a um estranho mas a um conhecido inimigo.

A verdade é que o escorpião, a meio do caminho, ferrou as costas da rã e deu cabo da vida aos dois. A rã envenenada, ele afogado. A rã ainda pergunta: mas porquê? E o escorpião diz que era a natureza dele.

E ficam as pessoas muito satisfeitas com a justificação. Gente má é má e pronto. O resto são histórias.

publicado por Manuel Anastácio às 07:11
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Sábado, 23 de Setembro de 2017
Amor é

Amor é

Não querer saber o que é

Não querer escrever sobre o que é

Pensar pode ser 

Mas sem querer

E sem precisar de concluir

O que for

Assim é muito simples isso do amor

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publicado por Manuel Anastácio às 20:34
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Entrou na política para ganhar dinheiro. Para se safar. Para ser alguém. Para mandar. Mesmo que o dinheiro não viesse, mandar já seria qualquer coisa. E, mais que mandar, os atributos do poder seriam suficientes para lhe encher o divã dos prostíbulos em que as mulheres não são consideradas putas só porque se deitam por dinheiro. Até porque se deitam, não por dinheiro, mas por poder. Mas o poder da política, em democracia ou em coisa por ela, não é sexy. Descobriu-o tarde. Os corrécios de Braga, no verão quente de 1975 tinham esse poder de arregimentar fêmeas. Entravam armados e a cavalo dentro dos cafés e expulsavam os comunistas, esses homens de H pequeno, amolecidos por ideais de igualdade e fraternidade. Os corrécios, discípulos de Eduardo da Costa Oliveira, o Corrécio propriamente dito, eram homens de pistola grande. E se aterrorizavam uma ou outra mulher, mais eram as que pouco queiram saber das paneleirices da igualdade de género. Também não era coisa de que se falasse. Muito. Umas três escritoras até podiam ter feito pouco da virilidade tacanha do macho português, mas as meninas que se pavoneavam junto aos bandoleiros de Braga adoravam o cheiro másculo da mistura de pólvora e água benta. Não havia ainda estudos que comprovassem que, em países socialistas, as mulheres tinham o dobro dos orgasmos. Isso só se soube depois, e mesmo quando se soube, ninguém quis saber, nem as mulheres que, entregues à liberdade capitalista, não souberam explicar a metade desaparecida. Das corrécias pouco se sabe, a não ser que ficavam excitadonas ao lado dos seus bad boys de sacristia. E que vinham de todo o lado. À espera de emoções fortes. 

Entrou na política para ser um senhor. Por isso não podia entrar pela porta do comunismo. Também pouco lhe interessava ler livros carunchosos das Edições Avante. Não apreciava erva. Queria dinheiro e mulheres. Se não houvesse o primeiro, tudo bem. 

Mas não era um corrécio. E se fosse... Os tempos são outros. A política é sítio para ganhar dinheiro, mas falta mulherio. Não nas listas dos partidos. Aí, que remédio. Mas mulheres políticas interessantes, só algumas de esquerda. As de direita são sensaboronas e querem casar e ter filhos. As de esquerda, são liberais. Fazem coisas. E isso dá a volta à cabeça da macheza de direita.

Mas mesmo que ainda houvesse corrécios, que os há, disfarçados, não lhe tinha a natureza dado tais encantos de virilidade pistoleira. E, encantado pelo canto da liberdade económica, mas incapaz de manter uma empresa que lhe desse para sustentar namoradas loiras de raízes pretas, como as dos futebolistas, entrou num partido de direita. Para descobrir que tinha de se curvar perante as confederações de patrões. E isso não era sexy. Tinha de defender discursos que até ele sabia serem próprios de velhadas. Pontuar as suas intervenções com preconceitos que, para dizer a verdade, nem eram preocupações suas. Queria lá saber se dois homens ou duas mulheres podiam ser juridicamente casados ou se podiam adotar ou não putos. Mas tinha de fingir que isso lhe tirava o sono. Passou a tirar. Porque mulheres que não fossem pagas, nem vê-las. Sedução vinda do poder... Qual poder? Pensou, então, em fazer a Revolução. Só assim poderia entrar a cavalo nas discotecas e sair delas depois de cavalgado por amazonas convertidas ao papel de descanso do guerreiro.

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publicado por Manuel Anastácio às 02:55
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Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
Os filhos não devem ser o mais importante numa família, por John Rosemond

O seguinte texto foi escrito por John Rosemond, um psicólogo (ainda que a sua licença para exercer não esteja reconhecida em alguns estados dos Estados Unidos) que está longe de ser um exemplo na sua classe profissional. Entre as nódoas que lhe sujam o currículo estão alguns conselhos inapropriados que deu a pais para que os filhos deixassem de ter acompanhamento psicológico, além de defender publicamente que crianças abusadas sexualmente não necessitam de qualquer ajuda psicológica profissional. A sua filosofia resume-se na ideia de que o modo antigo de criar os filhos é a mais correta e a que melhores resultados deu ao longo da história. É um psicólogo que resume a psicologia a uma fé, sem verdadeiro fundamento racional, como qualquer fé, embora eu desconfie que ele não seja tão desdenhoso em relação a outros tipos de fé. Eu também tenho as minhas quezílias com esta tão volúvel e discursiva ciência, mas é questão que não pretendo desenvolver neste artigo em particular. O texto que se segue é a tradução de um artigo seu, cuja leitura me parece aconselhável. Até num jardim envenenado nascem flores e, no meio de algumas passagens que me parecem mera propaganda republicana, nacionalista, tradicionalista e autoritarista, há um conselho a reter e que, além de me parecer apenas bom senso, parece-me empiricamente conforme à realidade. Vem de quem vem. Mas seria bom reflectir no assunto e que o mesmo fosse abordado de forma séria por psicólogos... a sério.

 

Os filhos não devem ser o mais importante numa família

 

Perguntei recentemente a um casal com três filhos, nenhum dos quais ainda na adolescência, “Quais são as pessoas mais importantes da vossa família?” Como todas as boas mamãs e papás deste admirável novo milénio, responderam: “Os nossos filhos!”

 

“Porquê?”, perguntei então. “O que é que dá aos vossos filhos esse estatuto?”, e como todas as boas mamãs e papás deste admirável novo milénio, não conseguiram responder à questão a não ser através de alguns apelos atrapalhados à emoção.

 

 

Por isso respondi, por eles, à questão. “Não há nada que torne razoável dar esse estatuto às vossas crianças.” E expliquei-lhes que muitos, se não a maioria dos problemas que eles tinham com os filhos - coisas típicas, hoje em dia - são o resultado de tratarem as suas crianças como se eles mesmos, o seu casamento e a sua família existissem por causa das crianças, quando, na realidade, é o contrário. Os filhos existem por causa deles e do seu casamento, e prosperam porque estes estabeleceram uma família estável. Além do mais, sem eles, os seus filhos não teriam uma alimentação adequada, não teriam as boas roupas que vestem, não viveriam na casa confortável em que vivem, não teriam as férias fantásticas que têm, e por aí fora. Em vez de terem vidas que são relativamente despreocupadas (apesar dos dramas que ocasionalmente tecem e que fazem crer no contrário), os seus filhos teriam, sem eles, uma vida cheia de preocupações e necessidades.

 

 

Este é ponto central da questão. As pessoas da minha idade sabem que este é o ponto central da questão porque quando éramos crianças, era para nós claro que os nossos pais eram a parte mais importante das nossas famílias. E era por isso, e exactamente por causa disso, que respeitávamos os nossos pais e era exactamente por causa disso que admirávamos os adultos em geral.

 

 

Sim, Virgínia, há algum tempo atrás, nos Estados Unidos da América, as crianças eram, para o seu bem, cidadãos de segunda classe.

 

 

Também era claro para nós - falo, claro, em termos gerais, embora de forma justa - que o casamento dos nossos pais era mais importante para eles que a sua relação connosco. Por isso, não dormíamos nas camas deles nem interrompíamos as suas conversas. A refeição em família, em casa, era vista como mais importante que as atividades extra-escolares. O papá e a mamã falavam muito mais um com o outro que connosco.

 

 

Como não estávamos num pedestal, emancipámo-nos mais cedo e com mais sucesso que as crianças que vieram depois.

 

 

A pessoa mais importante num exército é o seu general. A pessoa mais importante numa empresa é o seu Diretor. A pessoa mais importante numa sala de aulas é o professor. E as pessoas mais importantes numa família são os pais. A coisa mais importante para as crianças é prepará-las adequadamente para uma cidadania responsável. O principal objetivo não deve ser criar um estudante que só tira boas notas e é o maior em três modalidades desportivas diferentes, com lugar na equipa olímpica de natação e numa universidade de topo, e que se tornará um cirurgião neurologista proeminente. O principal objetivo é criar uma criança que venha a fortalecer a cultura e a comunidade.

 

Dizer “a nossa criança é a pessoa mais importante na nossa família” é o primeiro passo para criar uma criança que julga ter autoridade para fazer o que lhe apetece. Não vai querer isso. Que a sua criança não o saiba, porque ela não precisa disso. Nem a América.

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publicado por Manuel Anastácio às 16:18
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Segunda-feira, 6 de Março de 2017
Todas as águas

Aqui é primavera.

O inverno espreguiça-se, contrito.

Pede perdão enquanto morre.

As árvores explodem no grito

Aflito do tempo. Os minutos escorrem, húmidos,

Frios, sujos e vivos como o rio

Onde desaguam, como dejetos, os adjetivos.

Aqui é primavera e deus não quer saber dos vivos.

Limita-se a dar corda ao mecanismo

- motor imóvel do vazio.

As aves devoram o abismo e a madrugada.

Os gatos choram no cio. A vida acorda transtornada.

Aqui é primavera, mas deus não deu por nada.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:28
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